A diabetes mellitus (DM) é uma endocrinopatia caracterizada por alterações no metabolismo da glicose, relacionadas à deficiência de insulina, à redução de sua ação ou à combinação desses fatores.
O nome é um só, mas o mecanismo muda bastante de um paciente para outro, e isso muda também o caminho do diagnóstico. Em cães, predomina a deficiência de insulina, com um quadro semelhante ao da diabetes tipo I humana. Em gatos, é mais comum a resistência à insulina associada à disfunção progressiva das células beta, aproximando-se do perfil da tipo II. Por isso, antes de pedir exames, vale entender qual dessas condições o paciente tem mais chance de apresentar.
Quais são os sinais clínicos da diabetes mellitus?
Os sinais mais frequentes da diabetes mellitus são:
- polidipsia;
- poliúria;
- polifagia;
- perda de peso, mesmo com apetite mantido ou aumentado.
Em cães, a catarata pode estar associada à doença; em gatos, pode ocorrer neuropatia diabética. Nenhum desses sinais deve ser avaliado sozinho: histórico, exame físico e exames laboratoriais direcionam a investigação. Medicamentos, alterações hormonais, obesidade, pancreatite e outras doenças concomitantes também interferem na ação da insulina e no metabolismo da glicose.
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Diabetes tipo I: deficiência de insulina
Na tipo 1, as células beta pancreáticas deixam de produzir insulina em quantidade suficiente. É a forma mais frequente em cães e também pode acometer gatos, principalmente quando a perda de células beta avança ao longo do tempo. Sem insulina, a glicose não entra nas células, acumula-se no sangue e passa a ser eliminada na urina. Em quadros mais graves, o organismo recorre à gordura como fonte de energia, e aparecem as cetonas.
Como é feito o diagnóstico da diabetes mellitus?
Aqui o raciocínio é direto e se apoia em dois exames de rotina: glicose e urinálise. Hiperglicemia persistente com glicosúria, em um paciente com sinais clínicos compatíveis, fecha o diagnóstico. Em quadros metabólicos mais graves, a urina também pode revelar cetonas, o que indica maior urgência.
Evidência científica
As diretrizes da AAHA de 2026 para cães reforçam que documentar glicosúria com hiperglicemia concomitante estabelece o diagnóstico de DM, e que é preciso diferenciar o diabetes clínico de causas transitórias de resistência à insulina.
Hiperglicemia significa diabetes?
Não necessariamente. Estresse, alimentação, medicamentos e outras condições também elevam a glicose, e a hiperglicemia isolada não basta para o diagnóstico. Nos gatos, o estresse do manejo e da coleta pode causar elevações transitórias, o que exige ainda mais cuidado. A pergunta, portanto, não é só “a glicemia está alta?”, mas “o que essa alteração representa no contexto clínico desse paciente?”.
Diabetes tipo II: resistência à insulina
Na tipo II, a insulina existe, mas não age como deveria. O pâncreas até tenta compensar, mas, com o tempo, as células beta se desgastam e a secreção deixa de acompanhar a demanda. É o perfil mais comum em gatos, frequentemente ligado à obesidade e à inatividade. Em cães, a resistência à insulina costuma aparecer de forma secundária, associada a condições como o diestro, a acromegalia, o hipercortisolismo e o uso de glicocorticóides.
Como é feito o diagnóstico?
Nesse cenário, a glicose sozinha não conta a história inteira. É comum mensurar glicose e insulina em conjunto: a glicose mostra a concentração circulante naquele momento. A insulina ajuda a avaliar a resposta hormonal que controla essa glicose. Juntas, permitem investigar resistência insulínica e secreção inadequada de insulina, sobretudo quando a glicose sozinha não explica o quadro.
A glicose representa a glicemia; a insulina ajuda a entendê-la.
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A interpretação começa antes do resultado
Avaliar a diabetes mellitus exige mais do que olhar um número no laudo. Glicose, urinálise, insulina, sinais clínicos, histórico, medicamentos, alimentação e doenças concomitantes compõem o raciocínio diagnóstico. Quando é preciso aprofundar a resposta hormonal, a associação entre glicose e insulina traz informações extras.
Diagnóstico hormonal exige método, contexto e interpretação.
Referências bibliográficas
- American Animal Hospital Association (AAHA). 2026 AAHA Diabetes Management Guidelines for Dogs. 2026. aaha.org/diabetes-management-dogs
- Niessen SJM, Bjornvad C, Church DB, et al. Agreeing Language In Veterinary Endocrinology (ALIVE): diabetes mellitus, a modified Delphi-method-based system to create consensus disease definitions. Veterinary Journal. 2022;289:105910. doi.org/10.1016/j.tvjl.2022.105910
- Viau P, Martins F, Dos Santos R, Cattaruzzi D. Evaluation of Serum Insulin Measurement in Dogs: A New Perspective. ACVIM Forum Research Abstract Program. J Vet Intern Med. 2025. doi.org/10.1111/jvim.70258
- Pöppl ÁG. Guide Hormonale. 2ª ed. Hormonalle.
FAQ
Qual exame confirma a diabetes mellitus em cães?
Nos cães, o diagnóstico se baseia em hiperglicemia persistente associada à glicosúria e a sinais clínicos compatíveis, sempre considerando o histórico do paciente.
Hiperglicemia isolada confirma diabetes?
Não. É preciso considerar os sinais clínicos, a glicosúria e possíveis causas de elevações transitórias da glicemia, como o estresse.
Por que medir insulina junto com glicose?
Porque os dois marcadores informam coisas diferentes. Avaliados em conjunto, relacionam a glicose circulante à resposta hormonal e ajudam a investigar resistência insulínica e secreção inadequada de insulina.
Qual a diferença entre diabetes tipo I e tipo II?
Na tipo I, falta insulina e o diagnóstico é feito com glicose e urinálise. Na tipo II, a insulina não age como deveria e, nesse caso, é comum avaliar glicose e insulina juntas. Os cães costumam ter a forma semelhante à tipo I, e os gatos, à tipo II.
